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Ouvia ontem a música
Quase Sem Querer, do Legião Urbana. Fazia tanto
tempo que não ouvia. Quando eu era adolescente,
pensava que não existia melhor grupo de música no
mundo. Lembrei de algumas situações pessoais.
Um verso que gosto muito é o "mentir para si mesmo
é sempre a pior mentira", porque sei que o preço
que se paga para manter uma máscara é dolorosíssimo.
Além disso, é preciso que nos esforcemos a reparar as
atitudes desonestas que tivemos perante nós mesmos.
Quantas vezes somos
capazes de negar certas emoções em nós? Seria saudável
se nos ignorássemos nestes momentos?
No dizer de Hammed¹, a reparação é o ato de
compensar ou ressarcir prejuízos que causamos, não
apenas aos outros, mas também a nós mesmos, através de
posturas inadequadas. Ou seja, abrir mão de nossos
sentimentos em favor de alguém somente para receber
aprovação e consideração dos outros fará com que
mantenhamos mais firme as máscaras que carregamos.
Viver o direito de sentirmos nossas emoções é como
sermos honestos conosco mesmos. Isso ajuda no processo
de auto-reconhecimento e descobrimento. Agir de modo
contrário pode fazer com que nossa capacidade de
sentir corretamente diminua.
Daí a questão: como
reparar faltas se não entendo meus sentimentos? É a
interpretação equivocada da vida que levamos
afetivamente que nos conduz a buscas irreais. É
preciso que aceitemos nossas emoções e saibamos
conviver bem com elas.
É preciso que aceitemos nossas emoções e saibamos
conviver bem com elas. Uma emoção não é, em si, um
ato. Sentir é diferente de agir. Sentir raiva é
diferente de ser violento. Sentir afeto é diferente de
acariciar. Ou seja, conviver bem com o que sentimos é
aprender a discernir qual posição tomaremos diante das
emoções e não censurá-las por senti-las.
Daí a importância de
buscar saber conviver com nossas emoções. Nosso
comportamento, nossa capacidade de tomar atitudes é
que deve controlar nossas emoções, não o contrário -
se não me permito sentir, como manter as emoções sobre
controle?
Me reprimir não é o caminho para que eu tenha o real
entendimento do que e como estou fazendo as coisas em
minha vida. É preciso coragem para a disposição em
admitir o que sentimos. Mas é preciso sempre analisar
nossos comportamentos, de forma freqüente e efetiva.
Assim, podemos, com
a calma necessária, identificar os atos incorretos que
vivenciamos, associando-os aos sentimentos que os
originaram e, a partir daí, equilibrá-los. Nos dizeres
de Hammed, reparar nossas faltas com "nós mesmos e
com os outros" é a fórmula feliz para evitar o
sofrimento.
Decidir ser quem eu sou e como quero viver não
significa viver infeliz por ainda eu não conseguir ser
quem eu gostaria, mas contente se puder perceber que
posso mudar para melhor. De minhas atitudes também
depende uma vida autêntica e mais feliz.
Posso assumir minha
individualidade ou reprimir minhas fantasias, meus
talentos, meu eu, tentando ser o que penso que os
outros gostariam que eu fosse.
Passamos, ainda, muito tempo olhando os outros com
censura, que poda, que fere, sem qualquer consideração
para com os desejos, limites e dificuldades de cada
um; e sem perceber que, muitas vezes, sou eu mesmo um
detentor de dificuldades. Apontar falhas no outro
parece sempre dar uma sensação falsa de que somos
melhores que ele, e o engano é grande.
Também não podemos deixar o medo paralisar os planos
de melhoria íntima. Deixar tudo como está para ver
como é que fica nos impede de buscar e conseguir as
mudanças que necessitamos, considerando que será
preciso muita paciência e trabalho, num bom combate,
como se referia Paulo², já que teremos do
confrontar muitas de nossas emoções já estabelecidas
e, por hora, em situação cômoda por vezes.
A frase da música que destaquei nos convida a refletir
que não devemos mais tentar achar desculpas para todas
as nossas insatisfações. Há quem amaldiçoa sua sorte,
mas o que temos de aprender é enxergar como grandes
oportunidades as tribulações que a vida nos oferece -
verdadeiros convites ao exercício de nossas
potencialidades positivas, encarando a verdade de que,
no fim das contas, será sempre cada um de nós que
decidirá o tipo de vida que quer levar.
É uma benção saber que podemos escolher nossos
destinos, caminhando em direção a eles e, através de
ações concretas e pensadas, caminhar em direção a
eles. Pensar que tudo já está escrito nas estrelas não
condiz com a idéia que a doutrina espírita tem sobre a
bondade e justiça divina.
Por isso, não devemos
ficar presos a um passado que já acabou, onde nada há
mais a fazer; e sim desfrutar ao máximo do que já
possuímos, multiplicando o esforço para a obtenção de
novas conquistas, e não viver num clima de ansiedade e
desgosto por não ser ou possuir tudo o que eu
gostaríamos de ser e ter.
É preciso que tomemos atitudes acreditando em nossas
próprias forças, espelhando-se em quem já conquistou
para ele o que ainda não tenho em mim. Para tanto, a
análise de nossos comportamentos é importante para se
estabelecer se o que me falta é mesmo necessário. E
se, apesar de necessário, ainda não existir ou eu
ainda não possuir, preciso justificar o "ainda não",
para que eu não caia o risco de lidar com devaneios,
fantasias, idéias efêmeras.
A escolha é sempre
minha. Mas ponderação ao decidir é importante, pois é
cada um de nós que irá carregar, sozinho, o peso
das escolhas que fizermos.³
1- Hammed é um
espírito desencarnado, trabalhando, com psicografia,
ao lado de Francisco do Espírito Santo Neto,
resultando em livros maravilhosos.
2-Paulo é Paulo de Tarso, um dos percussores do
movimento cristão e maior pregador do evangelho do
Cristo que se tem notícia. No livro Paulo e Estêvão,
Emmanuel, através de Chico xavier, nos conta sua
belíssima e inspiradora história.
3- A última frase do texto foi transcrita de um texto
que li, mas não sei o autor. |